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Notícias Quentinhas

Evill Rebouças assina a direção de Amada, mais conhecida como mulher


Evill Rebouças é um dos artistas mais atuantes da cena teatral paulistana.
Com formação em diversos cursos, entre eles o Centro de Pesquisas Teatrais com Antunes Filho, é ator, diretor, professor, dramaturgo...Acima de tudo um artista que vê no teatro um meio de reflexão sobre a nossa realidade e de melhoria do nosso mundo, através do aprimoramento do conhecimento – via a arte.

Participou do Núcleo de Teledramaturgia do SBT, foi autor da novela Mandacaru (veiculada na extinta Rede Manchete), atuou na novela Cristal (SBT) e no Projeto Senta Que Lá Vem Comédia, da TV Cultura.
Em 2004, citando os seus trabalhos mais recentes, encenou Evangelho para Lei-gos dentro de um banheiro público e atuou no espetáculo O Bem-Amado, interpretando o Dirceu Borboleta.

2005 também foi ano muito produtivo para esse artista. Pingo Pingado, Papel Pintado, texto e direção de Evill, fez temporada no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, e O Morteiro fez sucesso no Centro Cultural São Paulo (assinou a direção). Em 2006 foi agraciado com o APCA pela adaptação da obra infantil Teresinha e Gabriela - Uma na Rua e a Outra na Janela (de Ruth Rocha).

É mestre pela Unesp - Universidade Estadual Paulista e pesquisa A dramaturgia e a encenação no espaço não-convencional.
No momento o seu grupo, Cia. Artehúmus de Teatro, é um dos beneficiados pela Lei do Fomento ao Teatro do Município de São Paulo e ocupa o espaço, no Projeto Ateliê Compartilhado.

Neste projeto, dois criadores investigaram a criação da dramaturgia cênica para imprimir outras possibilidades de recepção, considerando os pressupostos poéticos e ideológicos do teatro pós-dramático.

A Cia Artehúmus apresenta Amada, mais conhecida como mulher e também chamada Maria (dramaturgia e encenação de Evill Rebouças); que retrata uma mulher dona de várias faces: ora ela é Maria, uma mulher comum que sente prazer/desprazer na hora do ato sexual e da fecundação de seus rebentos; ora ela é Amada, uma pátria-mãe que se prostitui facilmente quando se depara com recursos oferecidos por estrangeiros para amenizar as desgraças de seus filhos.

Em cartaz desde maio, o diferencial é o espetáculo estar em processo de criação, isto é, após as apresentações são realizados debates com o público e, a partir das observações dos mesmos, são realizadas modificações na encenação.

Nesta entrevista Evill fala sobre a sua trajetória profissional (teatro, TV), conta como se interessou pelas artes cênicas, qual a importância do teatro, fala um pouco sobre o projeto compartilhado, entre outros assuntos.
Para saber mais detalhadamente sobre os seus projetos e as suas concepções sobre o fazer teatral, visitem:
www.dramaturgiadoabc.cjb.net
www.webearte.net
www.orkut.com/comunidades/Evill Rebouças

ENTREVISTA

Como você concilia a atividade de ator, professor, dramaturgo e diretor? Tem predileção por alguma dessas atividades?
Evill Rebouças: Conciliar várias atividades parece ser algo do mundo moderno. Sou um trabalhador de teatro, então atuo nessa área sem ter uma predileção específica por estar no palco, escrever, dirigir ou dar aulas. Na verdade o que me move são as propostas. Então, independente da minha atividade no espetáculo, o que me leva a trabalhar em determinada montagem são propostas e objetivos que possam ampliar a minha reflexão e a reflexão daqueles que apreciarão o espetáculo. Talvez, por isso, desde 2004, tenho me empenhado em realizar projetos com a Cia. Artehúmus de Teatro, grupo do qual faço parte e que tem um coletivo criador que se preocupa não apenas em produzir, mas apreender e investigar expedientes cênicos que contemplem os nossos discursos enquanto artistas e cidadãos. No campo da pedagogia, há três anos que dou aula no Teatro Vocacional e essa atividade tem revertido grandes descobertas ao artista e ao cidadão. Geralmente, são pessoas ávidas por conhecimento da prática teatral, mas, diferentemente da maioria das escolas de teatro de São Paulo, esse projeto nos dá a liberdade de transpor a linguagem estética como ferramenta de reflexão. Há, nesse sentido, uma apropriação da linguagem, mas a premissa básica não é formar atores e sim pensadores que poderão ser atores.

Como você decidiu se dedicar ao teatro e como você descobriu o dom de se dedicar aos diversos aspectos da arte teatral?
Evill: O teatro apareceu na minha vida na escola. Vi um espetáculo e a primeira sensação foi dizer a mim que eu queria fazer aquilo. Tinha o sabor de não ser eu. Quando eu vi o Rubens Correa atuando em "O beijo da mulher-aranha" e depois em "Artaud", aí não era mais sensação, era certeza mesmo. Quanto às diversas áreas que transito, isso foi em conseqüência da falta de trabalho como ator. Entre um espetáculo e outro, comecei a escrever e nessa brincadeira já produzi mais de vinte textos - alguns com certa qualidade, mas uma maioria que merece revisão em muitos aspectos. Na atividade de dramaturgo, meu divisor de águas foi atuar em "A luta secreta de Maria da Encarnação", último texto de Gianfrancesco Guarnieri. Depois desse trabalho, vi que grande parte da minha produção estava encarcerada em um pensamento pouco plural. Hoje, penso que meu desafio não é escrever novos textos, mas encontrar tempo para reescrever o que produzi anteriormente.

Alguns textos que você dirige são de sua autoria, outros não. Isso faz diferença pra você no processo de criação?
Evill: Talvez a única diferença seja a liberdade de poder mudar o que eu escrevi. Faço isso com muita tranqüilidade, pois acredito que uma dramaturgia só é plenamente dramaturgia quando ela chega ao palco, a partir dos vários discursos que serão interpostos sobre o meu texto. Já me deparei com alguns autores que ficam apegados a sua obra e isso dificulta um pouco. Mas só aceito um convite quando o autor me dá essa liberdade de compor o espetáculo em conjunto com o coletivo criador e isso implica em ter que alterar o texto, caso seja necessário.

Como foi encenar o espetáculo "Evangelho para Lei-gos" no Viaduto do Chá? Fale um pouco sobre este trabalho.
Evill: Foi um divisor de águas em dois aspectos. Era a primeira vez que a Artehúmus, depois de nove espetáculos montados, ganhava um prêmio em dinheiro. O Prêmio VAI da Secretaria Municipal de Cultura garantia uma ajuda de custo para os atores e apoiados por essa subvenção, conseguimos nos dedicar em tempo integral à pesquisa que desejávamos desenvolver.
O segundo ponto está relacionado a uma ampliação na condução estética de nosso percurso. Anteriormente, a Artehúmus tinha uma pesquisa voltada ao teatro épico, privilegiando essencialmente a investigação de uma dramaturgia não contínua. Tínhamos em mente que essa estrutura fragmentária era suficiente para incluir outros discursos dentro do próprio texto. A partir da montagem de "Evangelho para lei-gos", podemos perceber que além do nosso próprio discurso, havia também uma necessidade de criar espaços para que o espectador pudesse criar a sua própria dramaturgia. Nesse sentido, ocupar um espaço com uma carga semântica nos revelou que essa característica específica do lugar era uma possibilidade de inserir dentro do espetáculo, mais uma camada na dramaturgia do espetáculo. Em parte, devemos muito dessa apreensão à ELT - Escola Livre de Teatro. Foi lá que nasceu a primeira cena do que viria a ser o espetáculo, sob a orientação de Antonio Araújo e Luiz Alberto de Abreu. Depois, re-elaborei o texto para a ocupação do banheiro do Instituto de Artes da Unesp - Universidade Estadual Paulista. Mas, foi somente no banheiro do Viaduto do Chá que percebemos a real interferência de uma carga semântica de um edifício público dentro de uma ficção.

A sua dramaturgia valoriza a reflexão. É difícil sair de um espetáculo seu do mesmo jeito que entramos. Como é o seu processo de criação, de escolha de assuntos...
Evill: Quando escrevo é porque tenho necessidade de dizer algo. "Evangelho para lei-gos" surgiu de uma necessidade de mostrar a condição de indigência de uma população e o descaso de uma sociedade em relação a esse fato. Já em "Amada, mais conhecida como mulher e também chamada de Maria", eu precisava mostrar a passividade de um povo colonizado em 1500 e que até hoje ainda é manobrado sem ter consciência de que é manobrado. Então, penso em mim e penso em que aspecto o meu discurso pode transformar aquele que irá apreciá-lo. Mas não vejo apenas no texto essa possibilidade de discurso. O trabalho de uma equipe de criação interfere e amplia radicalmente aquilo que se encontra no papel. A repetida fala "Merda de vida", seguida de uma de descarga em que a água chegava até aos pés do público, só aconteceu em função da interferência do espaço e da reflexão de uma equipe inteira. Meu discurso não é suficiente, é apenas mais um ponto de vista que se une aqueles que estão criando o espetáculo comigo.
No caso de "Amada, mais conhecida como mulher...", conseguimos, graças ao subsídio do Fomento, dar um passo à frente. Ficamos dez meses investigando, essencialmente, expedientes do teatro pós-dramático porque acreditávamos que o texto era apenas mais um elemento do espetáculo. Cada cena hoje apresentada tem praticamente seis versões diferentes porque os integrantes da Artehúmus tinham a necessidade de dizer algo além daquilo que se encontrava no texto.

Por que a escolha de compartilhar com o público o processo de criação e aprimoramento do espetáculo?
Evill: A idéia de confinamento para a criação de um espetáculo sempre foi muito esquisita para mim. Se produzimos algo para ser apreciado, por quê não fazer isso enquanto o espetáculo não está estruturado? É muito dolorosa a sensação de vermos a demolição de uma casa assim que ela é aberta para visitação. Então, pensando nisso, achamos interessante dividir a construção da casa com aquele que irá vê-la. Sabíamos que tipo de casa queríamos construir, mas o tijolo, a argamassa, a pintura e muitas vezes a própria estrutura da casa ia se alterando conforme a apreciação.
Foi também um trabalho doloroso. Como aproveitar certas apreensões se só nós tínhamos a idéia da casa como um todo? Apresentávamos, quando muito, um esboço de um cômodo e isso levava o apreciador a dizer que muita coisa faltava naquela casa. Mas, a partir desse procedimento, conseguimos ampliar a visão de mundo da construção como um todo. E a aquela expectativa que geralmente acontece quando estreamos um espetáculo é praticamente diluída porque, principalmente, os atores já foram treinados para ouvir e refletir quanto às possíveis mudanças que poderão ocorrer após a estréia.

Como você lida com a crítica as feitas especificamente pelo público deste espetáculo? ...E a crítica dita especializada, que inclusive, te contemplou com prêmios, destaque para APCA 2006 (Texto Adaptado: Teresinha e Gabriela)?
Evill: A palavra crítica parece não fazer muito sentido nesse processo. Tivemos colaboradores que, diante de uma visão de mundo do assunto e de cada trecho de cena, esboçaram seu ponto de vista. Felizmente, agora na Mostra de Resultados de Pesquisa, a receptividade é tamanha - o que nos leva a crer que construir um espetáculo aos olhos do público pode e muito contribuir para um resultado interessante. Elogios, não apenas pela realização estética, mas falas que revelam um espectador inquieto e com posicionamentos perante o que viu. Há, no entanto, com certeza, certos posicionamentos que descartamos porque não contribuem para os objetivos do grupo. Mas, depois de dez meses de apreciação, nos habituamos a ouvir e filtrar aquilo que poderá colaborar efetivamente para os nossos objetivos. Um fato curioso é que, por estarmos trabalhando com expedientes que solicitam o tempo inteiro uma ativação da platéia para a construção de sentidos do espetáculo, algumas pessoas - principalmente de teatro - acreditam que o público comum não "entenda a peça". Mas, curiosamente, quando algo é dito nesse sentido, as reações do público comum são surpreendentes. Esboçam o seu ponto de vista e falam dos conteúdos apreendidos com muita propriedade.
Quanto à crítica especializada, foram raras às vezes em que tive a honra de poder contar com a presença de pessoas desse naipe em meus espetáculos. O APCA que ganhei com "Teresinha e Gabriela" parece uma ironia do destino comigo mesmo. Acho esse o texto mais quadradinho de todos que escrevi até hoje.

Como foi esta experiência; já havia trabalhado desta maneira anteriormente?
Evill: Não. Antes só havia passado pela experiência de apresentar um espetáculo para amigos, geralmente na pré-estréia.

Neste sentido, o seu projeto de mestrado foi voltado para o tema A dramaturgia e a encenação no espaço não-convencional. É uma excelente alternativa para a falta de espaços para apresentações ou mesmo para o alto custo de aluguéis...Como foi a escolha desse tema para o trabalho acadêmico e para você, como criador, qual utilizar esses espaços.
Evill: A minha primeira experiência em espaços alternativos veio em conseqüência de uma dificuldade. Eu participava na ELT - Escola Livre de Teatro do Núcleo de Dramaturgia e do Núcleo de Encenação. Tínhamos como meta apresentar cenas no Teatro Conchita de Morais. No entanto, o teatro estava em reforma e as cenas passariam a ser apresentadas em outros espaços da escola. Escolhi o banheiro como um elemento que poderia dialogar com o tema da morte social.
Quando ingressei no mestrado, eu já havia montado "Evangelho para lei-gos". Também me intrigava o diferencial alcançado na percepção quando assisti as encenações do Teatro da Vertigem. Havia nelas algo, além da materialidade do espaço - no caso, a carga semântica. Foi por isso que resolvi pesquisar o assunto, pois teria como abordá-lo a partir de uma experiência própria e das experiências do Vertigem.
Hoje vejo que a ocupação de um espaço público como palco para uma peça é algo além do estético. Nessa atitude há também um caráter político e social, pois a inserção de uma ficção dentro de um local público inclui, implicitamente, o depoimento do coletivo social.

Para a ler a entrevista completa, clique aqui:[link= http://www.nandaroverecultural.blogger.com.br/index.html http://www.nandaroverecultural.blogger.com.br/index.html [/link]

15/08/2007, por Nanda Rovere






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