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   Sexo

Sexo No limiar da Aids: a história da brasileira que ousou sair da prostituição




A história de uma mulher que teve a ousadia de escrever um livro sobre a sua própria vida na prostituição da Europa. A Agência de Notícias da Aids entrevistou Mariana Brasil, autora do livro “Entre fronteiras”. Ela, uma ex-prostituta que conheceu o céu e o inferno entre Itália e Suíça na década de 90. A história de Mariana foi apresentada (por ela própria) a Paulo Coelho. O best seller “Onze minutos”, do festejado escritor, teve Mariana Brasil como alicerce. Aliás, o episódio parece ter deixado um certo “engasgo” na garganta da brasileira. Ela não ficou nada feliz em ver parte de sua história contada no livro de Paulo Coelho, sem sequer ser avisada. Mas a mágoa pôde ser revertida em crédito. O escritor fez o prefácio (mais do que justo, aliás) do livro Mariana. A entrevista a seguir não trata pura e simplesmente do lançamento desse primeiro livro de Mariana Brasil. Falamos sobre a proximidade dela e de várias profissionais do sexo com o HIV. É um relato que destaca principalmente o risco que as mulheres casadas correm. Maridos, supostamente fiéis, que buscam sexo sem prevenção nas zonas de prostituição.

Agência de Notícias da Aids: Como era a Aids quando você saiu do Brasil?

Mariana Brasil: Eu saí em 1990. Uma das invenções maiores que eu admiro no mundo é o preservativo. Quem inventou o preservativo deve receber um prêmio, porque é realmente fundamental para o mínimo de proteção que a pessoa pode ter. Na época já se falava muito de aids, e de um modo que apavorava as pessoas. Coisas do tipo: - Você pega a doença se pegar num copo, tocar numa pessoa. Depois de muito tempo eu vim saber que não é assim. As coisas mudaram muito. Infelizmente as pessoas que tinham aids eram muito discriminadas socialmente, antes da informação ser realmente de domínio público.


Agência: Você chegou a notar uma diferença entre os homens brasileiros e italianos sobre a questão da Aids?

Mariana: Com certeza. A Itália é um país em que os homens ainda freqüentam muito as casas de prostituição. Muitas vezes, as pessoas que tem uma família “normal”, e que não são habituadas ao uso de preservativos, colocam em risco as próprias mulheres. Eles contratam uma profissional, pagam um pouco a mais e sugerem a não utilização do preservativo. Aí depende da profissional aceitar ou não. Ela vai colocar em risco não só a vida dela e a do homem, mas principalmente colocando em risco da mulher que está em casa.


Agência: O preservativo era amplamente divulgado pela mídia na Itália no início da década de 90?

Mariana: Não muito. Praticamente era divulgado entre as mulheres que faziam esse trabalho. Nós cercávamos aquelas que tinham um nível maior de informação, de capacidade de entender que a aids se pega sem as precauções necessárias. Eu por exemplo sempre usei preservativo no tempo em que estive trabalhando.


Agência: Tanto no Brasil como na Itália?

Mariana: Sim. Muitas vezes eu deixei de ganhar dinheiro por não aceitar propostas. E foram muitas propostas.


Agência: Qual era o argumento do homem?

Mariana: Eles diziam que não eram acostumados. Que era o mesmo que “chupar bala sem tirar o papel”. Todo tipo de frase idiota.


Agência: Você saiu do Brasil, portanto, com a cultura do preservativo. Como se portavam as outras garotas na Itália?

Mariana: Na época em que eu cheguei na Itália eram poucas italianas que praticavam esse trabalho. Eram 95% estrangeiras. O comportamento era como no Brasil. Algumas aceitavam fazer sexo sem camisinha, outras não. Hoje em dia na Europa a maioria das mulheres se previne. Mas existe sempre uma minoria que ainda aceita esse tipo de proposta. Depende da necessidade da profissional e do nível de persuasão do cliente. Tudo tem um preço, infelizmente.


Agência: Como era a reação dos clientes que insistiam no sexo sem preservativo, quando uma profissional se recusava a atende-lo?

Mariana: Depende muito. No meu caso a reação era própria de negativa. Se não fosse com preservativo não tinha conversa. Mas depois de receber vários “nãos” eles terminavam muitas vezes por tentar usar o preservativo. Mas existe uma categoria muito desagradável. Se a garota não for muito esperta o homem rompe o preservativo com as unhas. É uma coisa horrível. Tenho certeza que são homens que já sabem que são doentes.


Agência: Você viveu o drama da Aids com pessoas próximas a você?

Mariana: Sim, infelizmente sim. Normalmente a mulher quando sabe, ela não diz. Só fala para as amigas muito próximas. Quando ela fala sobre isso é porque já superou o problema. Mas a reação inicial da profissional que descobre estar com HIV é manter-se em silêncio, aceitar algumas propostas e contaminar mais pessoas. É claro que isso acontece em alguns casos.


Agência: Você perdeu amigas pela Aids?

Mariana: Sim. Eu convivi muito com os transexuais, que é uma categoria muito discriminada, de risco, mas são pessoas que eu amo. Eu tive oportunidade de conhecê-los do ponto de vista humano. No meu livro há um capítulo dedicado ao transsexualismo e à operação de uma mulher que nasceu num corpo errado. Por intermédio dessa minha amiga eu tive contato com muitas pessoas que hoje estão vivas e têm o vírus. Outras não estão mais vivas.


Agência: Quem o estrangeiro procura mais? A mulher..., o transexual...

Mariana: Eles procuram de tudo. A mulher brasileira é muito procurada. Os transexuais e travestis também têm um público específico.


Agência: As mulheres que você conheceu e que têm o HIV continuam trabalhando?

Mariana: Sim. Existem aquelas que são conscientes, que trabalham respeitando o próximo, evitando que esses se contaminem. Mas existem aquelas que têm um grande ódio dentro de si. Como reação interior elas querem se vingar de certo modo, contaminando outras pessoas, de quem um dia ela foi vítima. Isso não é uma reação só de brasileiras. Acontece com profissionais de toda e qualquer nacionalidade.


Agência: Os travestis, os transexuais e as mulheres brasileiras continuam indo para a Europa buscando a prostituição. Que tipo de conselho você gostaria de dar para essas pessoas?

Mariana: A minha experiência de vida nesse ambiente de prostituição me levou a um processo de crescimento muito grande. Talvez o preço que eu esteja pagando no momento seja muito alto. Um dia eu concedi meu corpo. Hoje eu concedo meu rosto. Particularmente isso me agride muito, mas eu fiz essa opção devido a certos fatos que ocorreram na minha vida. Quanto a essas pessoas que infelizmente ainda percorrem, ou pensam em percorrer esse caminho, a minha mensagem é única e exclusivamente de amor. A vida é uma dádiva. Precisamos nos precaver, devemos preservar o próximo e ser honestos com nós mesmos.


Agência: O que as pessoas tem a ganhar lendo o seu livro?

Mariana: Meu livro fala sobre prostituição, Aids, transexualismo, psicopatas e a violência física externa e interna. Mas em primeiro lugar o meu livro é um alerta. Eu mostro o que as pessoas não contam. Eu mostro uma realidade de uma pessoa simples que parte cheia de sonhos, e que tem vários desses sonhos frustrados. Essa pessoa “enverga mas não quebra”. Mas o preço não vale a pena.



Agência de Notícias da Aids Artigo Copyleft retirado do site www.cidadania.org.br




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