 Consegui o meu primeiro emprego e?
Ao apresentar-se para trabalhar, como conciliar a
humildade da inexperiência e a vontade de mostrar o que aprendeu na
universidade. O estágio ou o programa de trainee serve para que eu
aprenda o que pretendem me ensinar ou espera de mim que eu exponha meus
conhecimentos?" Essa dúvida é uma das mais freqüentes quando se chega ao
mercado: como dosar conhecimento e aprendizado no começo da carreira.
Quando terminam a fase de estudos, muitos jovens profissionais acreditam
ser "donos do mundo". Pensam: "Finalmente vou colocar em prática todos
aqueles conhecimentos adquiridos". Bom, aí começam os problemas!
Os empresários contratam novos funcionários com o
propósito de revigorar a companhia. Querem que os trainees e estagiários
de hoje assumam os postos de comando de amanhã, num processo contínuo de
renovação. Do total de recém-formados que ingressam numa empresa, será
preciso escolher aqueles que, submetidos aos sistemas de seleção e
triagem, apresentam melhor desempenho e aparente capacidade de adaptação
ao perfil da organização. E, aí, quem leva vantagem? Aquele que
demonstra interesse em aprender ou aquele que contribui?
O assunto é debatido de maneira torta pela maior parte dos
envolvidos. As empresas dizem que os jovens podem interferir
decisivamente nesse processo, mas não é exatamente assim. As faculdades
sugerem até mesmo que os jovens têm meios de aprimorar métodos de gestão
com aquilo que aprenderam nas aulas, o que, definitivamente, também não
é verdade. A única resposta razoável nesse caso é a posição mediana,
aquela que tende ao equilíbrio.
Jamais deixe que o tema se resuma a uma opção entre duas
alternativas. O mercado não quer alguém que chega se impondo, mostrando
o que pode oferecer. Ele prefere aquele que vai com mais calma, que
revela vontade de aprender. Não conheço ninguém que tenha contratado um
profissional recém-formado esperando a solução de seus problemas, mas
sim a energia que se apresenta na disposição para enfrentá-los. Vale
mais quem está a fim de correr riscos, tem curiosidade e inquietação,
apresenta capacidade de "apreender", abertura intelectual, agressividade
positiva, segurança pessoal. A chave é uma mistura, muito bem
balanceada, entre conhecer a empresa e dar a ela não ensinamentos
teóricos ou práticos, mas sua inesgotável capacidade de trabalho.
Por que não se deve perder tempo em querer ensinar alguma
coisa à empresa? É simples, basta lembrar que a grande maioria das
escolas vive distante da realidade do mercado e dos avanços
tecnológicos. A academia se informa sobre as últimas novidades em geral
quando elas são publicadas em revistas especializadas ou mesmo em livros
— sabe-se lá com que atraso. E o que dizer do corpo docente das escolas?
Há muito tempo, alguns professores não pisam no chão da fábrica, no
campo, no hospital. Seus ensinamentos podem estar tão desatualizados que
os "futuros chefes" tendem a ficar chocados com o que dizem os
recém-formados.
Pode soar estranho, mas os jovens, nesse caso, apresentam
aos chefes (mais velhos, sempre) idéias antigas. Nos casos mais
radicais, o choque de quem quer aplicar na empresa o que aprendeu na
academia pode ser inesquecível. O recém-formado estará levando consigo
idéias cultivadas num tempo em que o Brasil tinha uma economia fechada,
protegida, regulamentada. Naquele país, o provincianismo vencia o
cosmopolitismo, e a carreira era gerenciada pela empresa. Estabilidade
era a palavra-chave, vivia-se a época de fidelidade às regras
(submissão) e o paternalismo rondava o poder. Como alguém com essa
formação pode ensinar alguma coisa na empresa?
Aproveite o período do estágio para construir uma visão
completa sobre a chamada "cultura da empresa". E também para descobrir
em quem se pode confiar. Pergunte muito: perguntas provocam reflexão e
lubrificam o raciocínio.
Marcio Petersen Bamberg é Headhunter e conselheiro de carreira desde 1986, formado em Administração de Empresas pela
Faculdade de Economia e Finanças do Rio de Janeiro. Em seu site, pode-se encontrar artigos, notícias sobre carreiras e sua
atuação profissional: http://www.marciobamberg.com.br
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